A que se deve a tímida circulação da palavra impressa nas salas de aula e nos corredoredores do Campus da maior universidade da América Latina, frequentemente ranqueada entre as cem melhores do planeta? Alguém argumentará ...

"Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo."
(Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655)
“O senhor mire veja”, diz o célebre narrador de Grande Sertão: Veredas, narrativa irrepetível de João Guimarães Rosa, publicada há setenta anos. Mire e repare, ousaríamos nós: as bibliotecas andam esvaziadas, na universidade. Também é raro ver alunos ou professores a carregar livros – exceção feita quando uns e outros estão em épocas específicas, quase sempre em preparação para exames e provas, ou quando é necessário entregar projetos, produtos e outros trabalhos, ditos “de aproveitamento”.
A que se deve a tímida circulação da palavra impressa nas salas de aula e nos corredoredores do Campus da maior universidade da América Latina, frequentemente ranqueada entre as cem melhores do planeta? Alguém argumentará que isso de deve ao peso excessivo dos livros e revistas; outros dirão que há alternativas de leitura disponibilizadas nos gadgets e aparelhos eletrônicos; os mais audaciosos talvez admitam que a era digital inculcou a dispersão como modo geral de existência. Entre o tédio e o trabalho excessivo (cada vez se estagia mais cedo, na universidade; cada vez os professores perfazem mais rotinas, dentro e fora dos sistemas digitais), a página de papel cedeu lugar às macro e microtelas.
Não é preciso longa reflexão para constatarmos que o suporte (físico ou digital) interfere na qualidade da leitura e na apreensão do texto. Os historiadores do livro alertam, há décadas, para a importância da mediação editorial, no consumo dos livros. Algo parecido se observa na diferença que há entre escrever e digitar, por exemplo. Neurocientistas de renome enfatizam que a manuscritura é uma operação muito mais complexa que a de acionar teclas.
Face a esse diagnóstico, facilmente observável para quem percorre os caminhos e desvãos da universidade, este professor propõe-se a lançar um pretensioso manifesto intitulado Carreguem Livros!, grafado assim, em fonte com estilo bold, seguida de ponto de exclamação. Se o título não lhe aprouver, obviamente pode ser outro. Pense lá, o senhor, a senhora leitora, em melhor alvitre e como melhor proceder, para ampliar o contágio.
É fato digno de nota que uma das maneiras mais eficazes de recomendar a leitura dos livros (e teses e dissertações e relatórios e revistas) é transportá-los, mostrá-los – ou, quando for o caso, emprestá-los aos colegas de ofício e aos estudantes. Carregar livros é um modo de irradiar mensagens, dentre elas a de que não somos refratários à leitura de palavra impressa. Além disso, a visão dos livros físicos pode contagiar mesmo os não-leitores, afinal é da natureza humana saborear narrativas; ter sede de conhecimento(s).
Se vossa mercê permite o segundo atrevimento, numa pseudocrônica tão enxuta, eu recomendaria que a campanha – provisoriamente nomeada Carreguem Livros!, embutida no sinal de exclamação – fosse adotada feito postura cotidiana, no âmbito pessoal e profissional; na ida ou na volta do trabalho; a caminho da atividade de lazer, ao retornar do consultório médico…
Imagine-se, digamos, que a ideia se disseminasse e constituísse uma das importantes recomendações de caráter institucional (isso mesmo, no âmbito da universidade, da empresa, do hospital, da oficina, do estádio, da padaria, da fábrica, do espaço de coworking etc.).
Aposto que ler, abraçar, proteger e transportar livros estimularia, ainda mais, a natural curiosidade das crianças e incentivaria o diálogo (sobre livros, é claro) entre os adultos, à hora do café. Ademais, certas obras, assim como determinados filmes, são capazes de ampliar nossa visão de mundo; mudar, inclusive, o sentido de nossa mirrada existência. Riobaldo, o narrador rosiano, diria que “o mais importante do mundo é que as pessoas não estão prontas e vão sempre mudando, afinando ou desafinando”.
Carreguem Livros!
Jean Pierre Chauvin
Professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
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